Ele nunca a traiu... Bom, talvez em pensamento. Mas
isso não significava que era um bom marido. Um cara que lhe testava todos os
limites da paciência, fazendo joguetes e cenas dignas de uma indicação ao
Oscar. Ah, se Hollywood o descobrisse!
Ele nasceu em uma geração onde era bacana bancar o
machista – “Mulher minha não trabalha fora!” – Ele não dizia, mas certamente
era o que pensava e mostrava com as atitudes mais infantis que se possa
imaginar. Com isso, ela foi perdendo o tesão na relação. Não aquele tesão
necessário para um sexo bom, mas a acomodação de deixar-tudo-como-está,
empurrando com a barriga um relacionamento que já começou fracassado, movido por
uma motivação equivocada.
Mesmo assim ela se conformou e decidiu envelhecer ao
lado dele. O cara era um bruto, não fazia uso do bom e velho respeito, provocava
situações ridículas principalmente quando recebiam visitas a fim de que todas
as amigas e demais parentes se afastassem dela. Ninguém estava mais tão
disposto a presenciar baixarias!
Eram pequenas picuinhas que, muitas vezes, só ela
entendia e passava despercebido sob os olhares de quem estivesse presente. Isso
provocava ira, mas não o suficiente para que a fizesse dar um basta no
relacionamento. Como se fosse pouco, ele passou a beber.
Todos os dias chegava do trabalho com um bafo digno
de quem se esbaldou no boteco da esquina. As mãos sujas de giz dos tacos de
sinuca e um andar nada sexy. Queria abraçá-la e mostrar-lhe como segurar um
taco com dignidade e deixá-lo a ponto de “encaçapar” a bola. Ela se esquivava
procurando evitar o confronto. Foi então que aprendeu a ir para a cama mais
cedo, antes que a criatura chegasse com promessas de amor para dar.
Muitas vezes ela desejou que ele arrumasse uma
amante, se apaixonasse e a deixasse em paz. Mas ele só tinha olhos para ela.
Era capaz de visualizar a cena: ele chegando do trabalho e lançando a bomba no
meio de jantar “Me apaixonei por outra e quero o divórcio”. Seria perfeito! Em
outros momentos ela imaginava uma viuvez precoce, decididamente, por causas
naturais, pois a última coisa que queria era virar uma assassina da noite para
o dia e amargar numa prisão por conta do cafajeste.
Se ela procurava consolo nos braços de um amante, não
se sabe, mas mesmo isso não aliviava a sensação de dar de cara com a realidade
quando colocasse os pés dentro de casa. No fundo, ela tinha pena do marido.
Todos os dias agradecia aos céus por não ter filhos com ele e, por que não o
abandonava de uma vez por todas? Karma? De qualquer forma, talvez nem ela mesmo
compreendesse o que a levava permanecer ali, submissa e infeliz.
Aquela mulher era um mistério. Sempre dócil e gentil,
jamais reagiu às provocações ou revidou com ações. Quanto mais ele esbravejava
por motivos supérfluos, mais ela silenciava. Isso aumentava a ira do marido que
ansiava por quaisquer reações que a tirassem do sério e fizessem valer o
conflito. Ela, nada. Certo dia, uma amiga sugeriu vingança:
- O traia com o melhor amigo!
- Não sou desse tipo. – Ela respondeu.
O fato é que traição não deveria ser um ato vingativo.
Para a mulher, uma decisão como essa tem significados mais profundos do que pagar
na mesma moeda e este não era o caso. Ele era fiel e se tornou um bêbado,
apenas isso. Era um cara que, apesar de tudo, não agia com violência física,
embora soubesse usar bem as palavras para atingir a vítima.
Como pode uma
pessoa nascer para infernizar a vida da outra? – era a pergunta que ela
silenciosamente se fazia a cada manhã. Mas de uma coisa ela não poderia
reclamar, ele sempre a elogiava para os amigos dizendo ter em casa uma mulher
impecável que cuidava dos afazeres domésticos como ninguém. Não se via um
objeto fora do lugar!
Ele se acostumou a chegar em casa e se contentar com
a esposa dormindo (muitas vezes fingindo) e entrar sorrateiramente no quarto a
fim de não acordá-la. Por quê? Simples. Ele somente tinha prazer em acender a
luz no meio da madrugada, no melhor do sono, enquanto se preparava para sair
para o trabalho. Acordar a mulher assim era muito mais prazeroso!
Naquela noite, ele chegou de mansinho após ter
traçado um bom prato de comida e deixado a pia num estado caótico. Ele sabia
que ela odiava acordar pela manhã e encarar uma pilha de louças sujas. Com a
visão meio turva, se despiu na sala de estar e atirou em cima do sofá as roupas
suadas, largou os sapatos espalhados e as meias reviradas pelo tapete. Ela que
arrumasse no dia seguinte.
Nu em pelo se dirigiu para o quarto, não acendeu a
luz e se atirou com tudo sobre a cama. Ele sabia exatamente onde cada mobília estava
afinal tinha uma mulher impecável e meticulosa. Qual foi sua surpresa quando
sentiu seu rosto ir de encontro ao piso frio, provocando um barulho abafado
como quem joga um tapete enrolado com força sobre o chão. Ele ficou
desnorteado. Sentiu o sangue escorrer-lhe pelo supercílio devido à pancada e
rapidamente se levantou à procura da porta de entrada a fim de se situar no
ambiente. Virou-se para o lado esquerdo tateando na escuridão até encontrar a
maçaneta ou algum objeto que reconhecesse. Achou a porta, mas entrou no closet.
Sem ter noção do ocorrido, se aninhou em uma das prateleiras julgando ser a
cama e adormeceu, caiu num sono profundo que logo se podia ouvir o ronco.
Ela se levantou, pôs a cama de volta ao lugar
rotineiro, arrastou suavemente os dois criados-mudo e deixou tudo como sempre
esteve. Quando ele abriu os olhos pela manhã, se viu nu, deitado sobre as
toalhas de banho, com dores no corpo de uma noite mal dormida e com a ressaca
latejando-lhe a cabeça. Saiu do closet cambaleando e viu um quarto arrumado do
mesmo jeito que deixara quando saiu. Na cozinha, a mulher preparava o
café-da-manhã como de costume e o cumprimentou com um sorridente: “Dormiu
bem?”.
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