sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A herança

Juninho era a fotocópia reduzida de Oscar, mas os olhos e a cor da pele lembravam Suzana. "Grandes coisas!", sua mãe costumava dizer. Inclusive, quando soube que o neto seria macho, tratou de alertar a filha que todos os homens eram iguais, sem tirar nem por.
"Que isso, mamãe! A criança mal veio ao mundo e a senhora já está rogando praga?". Se fora efeito da praga rogada ou não, o fato estava bem diante do seu nariz. Para acordar aquela criança que mal tinha completado sete anos de idade, era um martírio. A sorte era que Juninho estudava à tarde.
Herdara do pai toda a lerdice e a mania enlouquecedora de colocar o relógio para despertar todas as manhã bem cedinho, apenas para ter o prazer de desligá-lo e voltar a dormir. Certamente, com o passar do tempo, aprenderia a programar inúmeros horários no despertador, com intervalos de 15 em 15 minutos, somando um total de 02 horas. Suzana já estava preparada para isso.
Numa atípica manhã de sábado, os três se reuniram para o desjejum e Juninho quebrou o silêncio com uma pergunta observadora: "Pai, por que o seu relógio está sempre marcando um horário diferente de todos os outros da casa?". Oscar parecia orgulhoso com a perspicácia do filho. Como aquele menino percebeu a estratégia audaciosa que o pai carregava consigo há anos? Que orgulho seria responder àquela pergunta tão bem formulada para quem, apesar da pouca idade, já mostrava tamanha sagacidade.
Oscar explicou detalhadamente o seu plano "infalível", tanto o seu relógio de pulso quanto o celular estavam 15 minutos adiantados para que ele não perca a hora, pois seu cérebro já se habituara a estar sempre à frente do próprio tempo. Detalhe que Oscar não era aquariano (é importante dizer isso!).
Juninho achou aquela explicação fascinante e, para desgosto de Suzana, a partir daquele dia, começou a colocar o seu relógio 15 minutos adiantado. Porém, os dois homens da sua vida viviam atrasados para todos os compromissos. Que grande ironia do destino!
Enquanto muitos são supersticiosos com o número 13, Suzana não podia nem olhar para o 15. Definitivamente, este era o seu número do azar.

- Mila Viegas -

Nenhum comentário: