quarta-feira, 19 de setembro de 2012

"Não, ele não me reconheceu. Não, ele não está sorrindo para mim. Não, Minha Nossa Senhora da Invisibilidade, te imploro, não o deixe me ver".
Se eu pudesse, me esconderia debaixo da mesa. Mas, como se esconder debaixo de uma mesa de um restaurante japonês?

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

domingo, 16 de setembro de 2012

Ode à vida


Quando Annielle ressurgiu neste mundo, consciente de que precisava trilhar um caminho, mas inconsciente dos propósitos e dos fins, veio com um despreparo imaginado e exigido. São as imposições de, alguém que como ela, escolheria lúcida, sã a passar por todos os desafios auto-impostos. Logo ela que, conforme o bailar dos séculos, foi virando lenda.

Daqui a alguns milênios, sua vida hoje poderá seguir o mesmo fluxo, quando se deitar à sombra de uma árvore frondosa e ter lampejos do que viveu agora, imaginando a saga dos seus antepassados e tentando se lembrar e reviver os tempos de outrora.

Ela que, por alguma razão, aqui está. Desprezando a morte e desafiando a vida ao limite máximo. E que pessoa sincera ela seria se não se despisse dos preconceitos que aprendeu a conviver e que, por conta deles, carrega desde a tenra infância a cobrança imposta por uma parte cruel do seu Eu em cada inspiração?

Certa de que Shakespeare tinha razão quando falou algo sobre os mistérios existentes entre os céus e a terra supostos pela nossa vã filosofia, Annielle traz este mistérios para dentro do seu mundo, feito de órgãos, vísceras e pensamentos. E, muitas das frases que desfilam pelo seu imaginário, ela não é capaz de lembrar onde foi que as construiu ou se simplesmente as ouviu em algum momento da sua história.

A dor e a delícia de ser humano estão em querer ser aceito e ela passou existências ludibriando tais anseios. Esquivando-se dos envolvimentos, dançando para ter jogo de cintura e compreender olhares. Se a vida é feita de filosofia sobre o que há nas entrelinhas, ela se permitiu aceitar. E, simples assim, ela foi aceitando, mesmo que discordando dos passos que seus pés, com vida própria, deram sem prévio aviso.

Ela anseia por ser a lua do seu mundo, mesmo já sendo sem nem perceber, mesmo duvidando e não tão feliz por depender da luz do sol. Coisas de ser humano auto-suficiente, que sabe ser utopia, mas que teima em dizer que não precisa de nada, só para não perder o costume. Mas, em algum momento ela se deparou com a sabedoria de que mulheres são luas que vão dos mistérios às fases, sem ter como controlar.

Ontem, Annielle não apareceu no céu e, por isso, brilhou aqui mesmo pela Terra. Ora um brilho sutil. Ora um brilho ofuscante que os olhares dos homens nem sempre podem contemplar. Quando este brilho intenso penetra em suas retinas eles não vêem nada, senão a deusa em forma de gente e sentem medo do que desconhecem.

- Mila Viegas -
*Publicado na Antologia "Contos da Madrugada", Ed. 2010 - CBJE.

sábado, 15 de setembro de 2012

Café

Eis que no prelúdio da manhã, aquelas mãos calejadas passavam lentamente o café. Água fervida na chaleira que apitava como uma sirene, pano de prato entre a mão e a alça, movimento ascendente do braço, inclinação delicada e o bico quase toca o pano tingido do coador. Sobe aquela bruma perfumada. Eis o despertador da alvorada.

O aroma é o convite. Arrouba-nos o espírito, seduz. Por quê? Obviamente existem explicações científicas, porém isso não é fato aqui. “Oh céus, como o cheiro pode ser mais atraente que o gosto?”, muitos perguntam. A questão em si não é essa e sim o envolvimento, o fluir das ideias servidas na bandeja junto com xícaras de porcelana. É inconsciente.
Sei que na dança de gestos e palavras que brindou aquela tarde, tudo era desconexo para quem passava em frente ao portão daquela casa… 
Era uma casa que tinha o telhado feito de nuvens. As paredes eram de biscoito. As camas, grama fofinha. No lugar da porta, um arco-íris. E cada janela era um livro.