"Não, ele não me reconheceu. Não, ele não está sorrindo para mim. Não, Minha Nossa Senhora da Invisibilidade, te imploro, não o deixe me ver".
Se eu pudesse, me esconderia debaixo da mesa. Mas, como se esconder debaixo de uma mesa de um restaurante japonês?
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
domingo, 16 de setembro de 2012
Ode à vida
Quando Annielle ressurgiu neste
mundo, consciente de que precisava trilhar um caminho, mas inconsciente dos
propósitos e dos fins, veio com um despreparo imaginado e exigido. São as
imposições de, alguém que como ela, escolheria lúcida, sã a passar por todos os
desafios auto-impostos. Logo ela que, conforme o bailar dos séculos, foi
virando lenda.
Daqui a alguns milênios, sua vida
hoje poderá seguir o mesmo fluxo, quando se deitar à sombra de uma árvore
frondosa e ter lampejos do que viveu agora, imaginando a saga dos seus
antepassados e tentando se lembrar e reviver os tempos de outrora.
Ela que, por alguma razão, aqui
está. Desprezando a morte e desafiando a vida ao limite máximo. E que pessoa
sincera ela seria se não se despisse dos preconceitos que aprendeu a conviver e
que, por conta deles, carrega desde a tenra infância a cobrança imposta por uma
parte cruel do seu Eu em cada inspiração?
Certa de que Shakespeare tinha
razão quando falou algo sobre os mistérios existentes entre os céus e a terra
supostos pela nossa vã filosofia, Annielle traz este mistérios para dentro do
seu mundo, feito de órgãos, vísceras e pensamentos. E, muitas das frases que
desfilam pelo seu imaginário, ela não é capaz de lembrar onde foi que as
construiu ou se simplesmente as ouviu em algum momento da sua história.
A dor e a delícia de ser humano
estão em querer ser aceito e ela passou existências ludibriando tais anseios.
Esquivando-se dos envolvimentos, dançando para ter jogo de cintura e
compreender olhares. Se a vida é feita de filosofia sobre o que há nas
entrelinhas, ela se permitiu aceitar. E, simples assim, ela foi aceitando,
mesmo que discordando dos passos que seus pés, com vida própria, deram sem
prévio aviso.
Ela anseia por ser a lua do seu
mundo, mesmo já sendo sem nem perceber, mesmo duvidando e não tão feliz por
depender da luz do sol. Coisas de ser humano auto-suficiente, que sabe ser
utopia, mas que teima em dizer que não precisa de nada, só para não perder o
costume. Mas, em algum momento ela se deparou com a sabedoria de que mulheres
são luas que vão dos mistérios às fases, sem ter como controlar.
Ontem, Annielle não apareceu no
céu e, por isso, brilhou aqui mesmo pela Terra. Ora um brilho sutil. Ora um
brilho ofuscante que os olhares dos homens nem sempre podem contemplar. Quando
este brilho intenso penetra em suas retinas eles não vêem nada, senão a deusa
em forma de gente e sentem medo do que desconhecem.
- Mila Viegas -
*Publicado na Antologia "Contos da Madrugada", Ed. 2010 - CBJE.
sábado, 15 de setembro de 2012
Café
Eis que no prelúdio da manhã, aquelas mãos calejadas passavam lentamente o café. Água fervida na chaleira que apitava como uma sirene, pano de prato entre a mão e a alça, movimento ascendente do braço, inclinação delicada e o bico quase toca o pano tingido do coador. Sobe aquela bruma perfumada. Eis o despertador da alvorada.
O aroma é o convite. Arrouba-nos o espírito, seduz.
Por quê? Obviamente existem explicações científicas, porém isso não é fato
aqui. “Oh céus, como o cheiro pode ser mais atraente que o gosto?”, muitos
perguntam. A questão em si não é essa e sim o envolvimento, o fluir das ideias
servidas na bandeja junto com xícaras de porcelana. É inconsciente.
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